“Só sei que nada sei.” (Sócrates)
Esse pensamento socrático representa o mais belo estado de humildade intelectual. Nesse estado, repousa o reconhecimento de que, quanto mais se aprende e se estuda, maior a compreensão do próprio objeto de estudo. O oposto desse conceito seria o que é conhecido como Efeito Dunning-Kruger, que representa um viés cognitivo em que pessoas com baixa habilidade em uma tarefa tendem a superestimar sua competência. Isso ocorre porque a falta de conhecimento impede o reconhecimento das próprias falhas. Em geral, determinadas pessoas, devido à tamanha ignorância, não conseguem perceber a própria ignorância sobre um determinado assunto.
Esse efeito, ou condição cognitiva, foi identificado em 1999 por dois psicólogos da Cornell University, David Dunning e Justin Kruger, que descreveram esse estado curioso: as pessoas com menor desempenho em testes de lógica e gramática eram justamente as que mais superestimavam sua própria performance (Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments, J. Pers. Soc. Psychol., 1999).
O que é o Efeito Dunning-Kruger?
O estudo acima aponta que, em geral, as pessoas tendem a superestimar suas habilidades em variados domínios, sejam sociais ou intelectuais. O problema decorrente desta observação está no fato de que não somente tais indivíduos chegam a conclusões erradas, devido à sua baixa percepção, como não são capazes de perceber isso. Essa incompetência para perceber a realidade faz com que permaneçam convivendo com as consequências de suas escolhas.
Os autores descobriram que os participantes que obtiveram piores pontuações em testes de humor, gramática e lógica superestimaram grosseiramente seu desempenho e habilidade nos testes. Embora suas pontuações nos testes os colocassem nos percentis inferiores da distribuição, eles estimaram estar classificados em percentis superiores, acima de 60%. Várias análises vincularam essa descalibração aos déficits na habilidade cognitiva ou à capacidade de distinguir precisão de erro. Por outro lado, melhorar as habilidades dos participantes e, portanto, aumentar sua competência cognitiva os ajudou a reconhecer as limitações de suas habilidades.
E por que isso é importante?
No mundo do trabalho, confiança é valorizada. Mas confiança sem competência gera decisões ruins, conflitos e estagnação. Por outro lado, profissionais mais experientes muitas vezes sofrem do oposto: subestimam suas habilidades porque conhecem a complexidade do tema.
A curva de confiança não é linear: pode começar alta (ilusão de saber muito), cair à medida que você vai percebendo a complexidade e voltar a subir proporcionalmente ao aumento do conhecimento real, exatamente como mostra a figura tema do post (leia mais aqui). Vale mencionar que o ponto mais baixo dessa curva é constantemente atribuído ao que se conhece como síndrome do impostor. Neste ponto, costuma-se duvidar de tudo o que foi aprendido (“só sei que nada sei”). Profissionais mais experientes muitas vezes subestimam suas habilidades porque conhecem a complexidade do tema. Na verdade, esses dois extremos representam riscos:
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O iniciante confiante demais que para de aprender.
- O experiente competente que duvida de si mesmo.
Deve-se evitar esses dois opostos, e a melhor forma de ultrapassar esses obstáculos no caminho do aprendizado chama-se autoconhecimento.
Como não ser vítima desse efeito!
Procure formas genuínas de se desenvolver constantemente, sem deixar seu ego atrapalhar sua curva de crescimento, nem sua autocrítica desmerecer sua trajetória de aprendizado até aqui. É um equilíbrio permanente. Abaixo vão algumas dicas:
- Busque feedback honesto e constante: Identifique pessoas que o possam ajudar a enxergar o que sozinho você não vê.
- Aprendizado contínuo: À medida que aprendemos sobre um tema, percebemos cada vez mais sua complexidade.
- Ande com pessoas melhores que você*: Ambientes desafiadores sempre revelam oportunidades de crescimento.
- Pratique a humilde intelectual: Reconheça quando não souber algo. Não há armadilha maior do que pretender saber do que não se sabe, além de aumentar sua credibilidade.
- Meça sua evolução: Não adianta achar que está aprendendo quando pode estar apenas se enganando. Confronte dados e faça análises sobre seu desempenho.
* Aqui vale um destaque. Em “Gulistan: O Jardim das Rosas”
O tolo que sabe que é tolo, nisso, pelo menos, é sábio. Mas o tolo que pensa que é sábio, esse é realmente um tolo.
O verdadeiro crescimento começa quando o ego diminui. A boa notícia? O Efeito Dunning-Kruger não é uma sentença, trata-se de um alerta. Quando você aceita que ainda tem muito a aprender, abre espaço para a evolução real. O profissional que cresce não é o que acha que já sabe o que precisa. É o que continua aprendendo mesmo depois de anos de experiência.
A seguir, confira algumas sugestões de leitura para saber mais sobre o tema:
- Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar — Daniel Kahneman
- Pense de novo: O poder de saber o que você não sabe — Adam Grant
- — Rolf Dobelli
- Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts
— Carol Tavris & Elliot Aronson (inglês)
E você: em qual área da sua vida pode estar superestimando seu conhecimento sem perceber?

